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VERDADES ABSOLUTAS

A lei da gravidade prende-me à terra onde concebi raízes
E na madrugada desafio a fotossíntese das plantas superiores.
Respiro fundo e redesenho o círculo mais-que-perfeito 
A que chamo mundo, sem, contudo, o perceber.
Multiplico os dias que trago na saudade pelos da memória do futuro,
E dou conta que contrario a esperança de vida facultada aos poetas.
As desauridas contas do meu rosário já não contam!
Penitencio-me com os teoremas que o salário mínimo
Me permite comprar em época de saldos extraordinária.
Se confesso os meus medos alguém, cobardemente,
Desafia a minha coragem desarmada.
Amaldiçoado tenho mais hipóteses de ser
Certificado de santo, com cátedra na esfera divina;
Existimos treze à mesa e impõe-se que se revele um traidor:
Beijo cada um de vós pela beleza das vossas primeiras esposas.
- Esperem! Morrer por amor já está fora de moda!
Quem ainda aqui perdura mantem expectativas
Pelas minhas desculpas de me sujeitar a estar vivo.
Os anarquistas reafirmam que é proibido proibir
E eu não dou sinal de me querer erguer
Da poltrona esquecida pelas revoluções solares:
Nesta zona de sombra a minha pele não amadurece.
O resumo do mundo nunca foi uma soma ou reprodução:
Inquisitorialmente divido todos os livros que possuo
Pelos fogos fátuos que consomem o oxigénio rarefeito.
Subtraio às minhas necessidades íntimas
O conhecimento do bem e do mal e atrevo-me
A ser quase-feliz – com a tortura da luz pelas costas.
A cada sujeito o seu verbo predestinado por um complemento.
Pudesse eu possuir o tempo e esventrar o espaço
E haveria de olhar de frente o sol pela numa tentativa extrema,
Desvendar a profundidade em que a minha noite nasce e cresce.
Aceitaria a lei da lógica e as leis da matemática moderna
Que demonstram que de tantas vezes que se ousa a sorte
Acaba-se por não se premeditar o azar.
Dar-me-iam um número sagrado para eu arriscar.
Uma fogosa multidão de ultramaratonistas grita:
Se partires em último ainda vais ter fôlego
Quando o primeiro cortar a meta.
Coimbra, 5 Janeiro 2019

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