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AMOR PROVÁVEL

A boca seca de tantas manhãs desertas
Permitiram-me patentear elixires de expurgação:
Esta praia possui todo o tempo que me resta!
Os pecados que outrora aqui se cumpriam,
Na cíclica penitência do teu corpo,
Purgam-se na maré-cheia da saudade.
Pressinto-te para além do tacto das fotografias
Desarrumadas pelas paredes centrífugas deste litoral
E como tenho não vocação para o desespero
Insinuo-me ao luar em uivos de vento.
Possuo o espaço mínimo para permanecer
Acordado a assistir ao fim do mundo.
Os segredos confiados são as grades do coração,
E ao teu umbigo, onde antes tudo nascia e findava,
Concedo hoje a humilde paz interior.
Por razões óbvias não me comprometi em nenhuma carta de amor,
E a razão é um sítio estranho por situar.
Encontro-te em cada grão de areia devolvido à costa:
Em cada murmúrio um recém-nascido por aperfilhar.
Manténs a beleza nupcial de um flash instantâneo,
E não esqueceste o dialecto em que nos interpretávamos.
Num premeditado gesto fúnebre temperas com o sal do nosso suor
Embolorecido a minha última refeição,
E estudas-me a comer sem a pressa do vómito,
Como se o amor voltasse a acontecer dentro de momentos.
A folha em branco que me confiaste continua imaculada:
Nunca reencontrei os adjectivos para confessar o teu perfil ao papel.
Com o extinguir apressado da luz natural
Apressa-se o gesto de esticar o braço até ao teu olfacto
E ser pressentido na maresia que nos anseia.
Resgato-te com vida nos escombros da memória.
Sei que hoje não é tarde para afogarmos
Os nossos corpos impermeáveis.

Coimbra, 6 Janeiro 2019

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