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OS NECRÓFAGOS

Hoje é o dia de proceder ao inventário das coisas fúteis:
Reiteraram-se os órgãos cansados, os ossos quebrados,
A pele viscosa reconhece as rugas espelhadas,
O coração, vulgar e despreocupadamente cansado,
Não vai além de um quarto de quilo.
Do fígado sei as lânguidas bebedeiras,
E dos pulmões a melancolia das madrugadas.
Quando pensava largar o meu corpo à Ciência
A defesa do consumidor alertou para a falta de qualidade da minha alma.
Tinha para mim que a carne apesar de estar fora do prazo de validade
Ainda daria para aguentar mais duas ou três revoluções
Da ordem natural das coisas.
Sinto um calor quase maternal:
Começam pelos olhos de forma a eu não conseguir olhar para dentro.
O coração é embalado e após o tempo de quarentena previsto por lei,
Será o prato principal da mesa real.
Debicam-me as entranhas em espasmos de degustação.
Uma multidão sem preceitos suplica o meu bucho
E nem os preconceitos das minhas tripas
Adelgaçarão o apetite de nobres criaturas domésticas.
No amadurecer da dor pedem-me memórias de infância:
Fotografias a preto-e-branco povoam as paredes salitradas.
Segredam-me ininterruptamente palavras melodiosas
E enquanto venenos ansiosos irrigam-me o interior
Relembram-me que estou proibido de sonhar:
Não posso viver a minha última vida com êxtase.
Perguntam-me pela natureza das minhas cicatrizes…
Se eu pudesse saborear todas as vidas
Que garantiram que tinha direito
E se me tivesse recebido um nome primitivo, selvagem,
Eu não haveria de preferir ficar hirto.
Sei que não dediquei demasiados poemas,
De carne-e-osso,
Aos carrascos da minha alma.
Coimbra, 01-01-2019

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