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E SE O MEU FUNERAL FOSSE POR UM DESTES DIAS?

Se pudéssemos marcar uma data no calendário para a nossa própria morte, a maioria de nós escolheria um ano distante… E em que mês? E em que dia? ´Sei que não escolheria o Natal porque o nascimento do Salvador é mais importante do que qualquer morte de um dos mais comuns dos mortais. Talvez preferisse a data do meu aniversário que assim matava dois coelhos de uma cajadada! E porque se aproxima o meu aniversário, se a data marcada para a minha morte fosse por um destes dias?
Já é hábito a morte frequentar as minhas noites, mas até hoje tinha sido sempre a morte dos outros a roubar-me o sono. Esta noite foi diferente! Foi a noite do meu funeral:

“Podem-me dizer qual foi a causa de morte?... Estão a dizer-me que eu estava infectado com coronavírus?... Que raio de morte é essa? Derrotado por uma coisa invisível! De certeza que não fui trucidado por um comboio fora de horas ou atingido por um tiro de um caçador que me confundiu com uma presa? Talvez tenham razão… Aparentemente o meu corpo está intacto... Desculpem, eu sei que já vou tarde, mas recuso-me a aceitar uma morte assim! Porque não me perguntaram de como eu preferia morrer? Sinto-me um cão vadio que os parasitas venceram! Atribuam-me, por favor, na certidão de óbito, outra causa de morte. No mercado negro há muitas à venda. Se eu desperdicei tantas oportunidades para morrer de enfarte, vou agora ser derrotado por um vírus!... Mal por mal digam que fui envenenado… Que é quase a mesma coisa…
Morri e agora? Tenho na minha carteira uma lista de convidados predefinida! Os da primeira folha têm de passar a noite comigo! Já estão incluídas duas carpideiras contratadas a peso de ouro. Ensinei em vida tanta gente a chorar que temo que não sobraram lágrimas para a minha morte. Atendendo às condições do espaço em que serei velado todos os convidados terão a sua oportunidade de me dizerem na cara o que guardaram para si durante os anos que me aturaram. Não se acotovelem por um lugar junto a mim, que eu cá tenho as minhas preferências. Aos convidados das folhas seguintes é-lhes dado a escolher entre o velório ou o funeral. Dividam-se para eu sentir que estão todos presentes. Ponham à entrada da capela mortuária um aviso para que os convidados não exagerarem na água benta! Senão quando chegar lá em cima ainda vão pensar que andei à chuva. Todos sabem que eu não uso guarda-chuva e eu recentemente cheguei a acordo com os guardiões da minha alma para no dia do meu funeral fazer sol.
Os velórios estão suspensos para mortos da minha estirpe? E quando serão restabelecidos? Não estou predisposto a esperar tanto tempo! Prescindo então do velório... Já vai longe o tempo em que os velórios se realizavam na sala de estar, e já me tinha convencido que não podia regressar a essa infância… A minha sala de estar é acolhedora e havia-se de beber café durante toda a noite. Do interior do caixão haveria de sorrir com os acontecimentos que os convidados haveriam de trazer à baila... E haveria tanto para recordar! E eu sem me poder levantar para dizer que aquilo que se contava não fora bem assim...
A roupa para eu vestir já deve vir a caminho… Rezo para que a minha viúva não me traga aquele fato às riscas, com a gravata a condizer. E ainda bem que escondi a gravata com Mickeys e Plutos, que a minha mulher não vai ter tempo de a encontrar! Dentro do caixão vou parecer um preso elegantemente vestido. Ainda não falei com o cangalheiro, mas quando tiver uma oportunidade vou suborná-lo para ele me alargar o nó da gravata. Ser enterrado com a gravata apertada seria para mim uma segunda morte. Imagino-me na presença do juiz e a não conseguir falar... E mais depressa seria declarado culpado por nada ter a dizer em minha defesa. Quero, pelo menos, instalar a dúvida durante algum tempo.
Não posso ir vestido? Terei de ir nu!?... Por esta não esperava eu! E também não vão ungir o meu cadáver? Mas, depois de tudo a que fui sujeito, acho que merecia um banho… Não precisaria de ir perfumado, a cheirar a rosas, mas com este aspecto vai ser difícil eu provar que apenas eu estive implicado na minha morte. Olho para mim e quase chego à conclusão que tive a vida presa por adesivos! Em vez do fato às riscas vou merecer dois bodybags?... Vocês enlouqueceram? Já se imaginaram ser presentes a um juiz completamente nus? O que vão pensar os outros mortos de mim!? A caminho do tribunal celeste roubarei do estendal de alguém, que ficou a meio caminho, roupa para disfarçar a minha falta de pudor.
E só podem assistir dez pessoas ao meu funeral? Eu não gosto da palavra “assistir”! Por acaso a minha morte vai ser um espectáculo? Se assim for sinto-me no direito de reivindicar os meus direitos de autor. E agora quem é que eu vou convidar? Como se vão sentir os excluídos? Ainda me vão pedir uma indemnização por danos emocionais! Dêem-me uns minutos para reformular a lista. Não sou bom a fazer listas de convidados! Demorei toda a vida a fazer esta… Fazia-me jeito alguém disposto a ajudar-me. Mas das vezes que pedi ajuda para fazer uma lista de convidados quem me ajudou incluiu pessoas do seu interesse. E eu não quero ter pessoas no meu funeral destinadas a funerais de outros. Vai tanta gente ficar de fora! E eu que sempre ambicionei ter todas as mulheres da minha vida presentes! Os meus progenitores, a minha viúva, a minha filha e o meu irmão têm o lugar garantido. Portanto restam cinco lugares… Pronto… Aqui estão os eleitos!... Bem sei que deixei uma vaga… Existem sempre surpresas de última hora… Sempre imaginei muito estranhos presentes no meu funeral. Mas bastará um para eu me sentir reconhecido!
Já escolheram a banda sonora? Ninguém ainda se lembrou disso?... Era de esperar… Não fosse eu o poeta dos silêncios!... Apressem-se! Não percam mais tempo! Não prescindo de Chopin! Um piano fica bem em qualquer funeral, e por mim até ficava por aí, mas sei que alguns dos convidados não prescindirão de escutarem pela última vez a música das nossas vidas.
E não se esqueçam das flores! É obrigatório cada convidado trazer pelo menos uma! Todos sabem que eu gosto de rosas, mas quaisquer flores são bem-vindas... Desde que não sejam de plástico! E todas elas serão anónimas. Não quero nenhuns cartões assinados de eterna saudade. Vou dispor de muito tempo para ligar cada flor a cada convidado. Ainda a propósito de flores distribuam um malmequer de pétalas ímpares por cada convidado. Quando eu estiver a descer à minha última morada, os malmequeres deverão ser despetalados: Céu-te-quer… Inferno-te-quer… Céu-te-quer… Inferno-te-quer… Assim todos terão a garantia que eu fui para um sítio melhor.
Bem, encaminhem-me para a igreja que o padre tem mais que fazer! Ajudem a minha mulher a subir para o carro funerário! No carro funerário também não pode ir ninguém sentado ao meu lado? Bem, isso até agradeço… Essa viagem é o momento de introspecção de que necessito para aceitar que por mim fiz tudo o que havia a fazer.
Vamos directamente para o cemitério? Não se vai realizar missa de corpo presente? Os mortos da minha estirpe não entram na casa de Deus… Eu bem sabia que não tinha conseguido convencer o padre da minha paróquia para ele, no dia do meu funeral, não ter pressa em ir pescar… Olhem que Deus estava sempre a convidar-me para ir a Sua casa… E eu andei sempre a adiar… No cortejo para o cemitério passem frente à Sua casa para eu lhe acenar a dizer adeus. E eu tinha escolhido uma passagem do apocalipse para pôr na boca do padre…. Está aí na minha carteira… Andava sempre comigo porque nunca se sabe quando poderia ser precisa. Começa assim: O mar entregou os mortos que nele havia, e a morte e o Hades entregaram os mortos que neles havia; e cada um foi julgado de acordo com o que tinha… Mas então lá vai ter de ser: terei de me contentar com a encomendação da alma que o padre me fizer à beira da cova. Vamos lá então! Vou deixar-me levar… Estou ansioso por ver se o padre a piscar-me o olho… Ele sabe dos pecados que me condenam! O caixão não será aberto? Negam ao morto a sua última oportunidade para ver o céu que se vai abater sobre ele? Mas eu queria que me vissem pela última vez a sorrir. Como mortos-vivos devíeis estar mais atentos às necessidades de um morto!
Se eu não tenho outro remédio senão aceitar, dou-me por rendido! Se não prefiro ser cremado? Credo… Não! Para já dou-me muito mal com o calor… E exijo um lugar público onde a minha filha possa dizer que teve um pai. Não basta o bilhete de identidade! Uma lápide vale mais do que um bilhete de identidade.
Quando tudo isto chegar ao fim desenterrem-me para me darem um funeral como deve ser! Até estarei disposto a aceitar um fato e uma gravata... Desde que esta não tenha figuras da Disney, como tanto a minha viúva aprecia."

António Miguel Ferreira, 26-04-2020

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